30.9.06

O grito

O grito cala
O silêncio grita
A voz não fala
O coração palpita

Maldito grito
Maldita fala
Que distorce, retorce
A palavra maldita

As lágrimas gritam
Quando há lágrimas
A febre grita
Quando há febre

O coração grita
Quando bate
O corpo grita

Quando há dor

O grito cala
O silêncio grita
A voz não fala
O coração palpita

Maldita fala
Maldito grito
Que se cala
E deixa o grito maldito

As mãos gritam
Quando há briga
As palavras gritam
Quando não há voz

O lápis grita
Quando há folha
A folha grita
Quando há palavras malditas

O grito cala
O silêncio grita
A voz não fala
O coração palpita

O toque grita
Quando não há toque
Os olhos gritam
Quando não há mais a vista

A boca grita
Quando não há mais comida
As paredes gritam
Quando há solidão

O grito cala
O silêncio grita
A voz não fala
O coração palpita

Maldita fala
Maldito grito
Que se cala
E deixa maldito


Mário Davi Barbosa

A imagem acima é uma fotografia da obra "O grito" de Edvard Munch, 1893.

25.9.06

Ela disse Não


Ela disse que Não e disse que Não querendo dizer Sim, disse que Não porque Não dava, era inevitável dizer o Não. Não tinha outra escolha.

Ela disse que Não e por dentro Não pode esconder a dor da escolha, escolha forçada, pela vida, pelas circunstâncias que foram cruéis e Não deram outro viés, outra opção.

Ela disse o que queria, disse o que estava engasgado, entalado, entupido em sua garganta e arranhava a alma e maltratava o corpo, porque o Não, Não era um simples Não, era uma escolha pra vida toda.

E tudo o que passou pela sua mente, tudo o que passou pela sua vida, no momento da decisão Não bastou para segurar, Não bastou para impedir o Não que prosseguiria ali.

A escolha trouxe uma perda. Grande perda, perda pra vida, perda que dói e destrói o coração que nunca voltará ao estado do antes do Não, da negação, abstenção.

Ela disse Não procurando um Sim. Hoje ela procura um Sim, um Sim pro caminho, Sim pra revolta, Sim pra uma resposta que diga um Sim pro Não que ela disse.


Dedicado à Gabriela, por sua escolha difícil, mas necessária.

22.9.06

Bandido negro

Corre, corre, sangue do cativo
Cai, cai, orvalho de sangue
Germina, cresce, colheita vingadora
A ti, segador a ti. Está madura.
Aguça tua fouce, aguça, aguça tua fouce.
(E. SUE - Canto dos filhos de Agar)



Trema a terra de susto aterrada...
Minha égua veloz, desgrenhada,
Negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu ... ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa,
Porque o negro bandido bradou:

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Dorme o raio na negra tormenta...
Somos negros... o raio fermenta
Nesses peitos cobertos de horror.
Lança o grito da livre coorte,
Lança, ó vento, pampeiro de morte,
Este guante de ferro ao senhor.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Eia! ó raça que nunca te assombras!
Pra o guerreiro uma tenda de sombras
Arma a noite na vasta amplidão.
Sus! pulula dos quatro horizontes,
Sai da vasta cratera dos montes,
Donde salta o condor, o vulcão

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

E o senhor que na festa descanta
Pare o braço que a taça alevanta,
Coroada de flores azuis.
E murmure, julgando-se em sonhos:
"Que demônios são estes medonhos,
Que lá passam famintos e nus?"

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
Pra pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este - irmão da mulher que manchaste...
Oh! não tremas, senhor, são teus cães.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

São teus cães, que têm frio e têm fome,
Que há dez séc'los a sede consome...
Quero um vasto banquete feroz...
Venha o manto que os ombros nos cubra.
Para vós fez-se a púrpura rubra,
Fez-se a manto de sangue pra nós.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Meus leões africanos, alerta!
Vela a noite... a campina é deserta.
Quando a lua esconder seu clarão
Seja o bramo da vida arrancado
No banquete da morte lançado
Junto ao corvo, seu lúgubre irmão.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz

Trema o vale, o rochedo escarpado,
Trema o céu de trovões carregado,
Ao passar da rajada de heróis,
Que nas éguas fatais desgrenhadas
Vão brandindo essas brancas espadas,
Que se amolam nas campas de avós.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz

Castro Alves.

15.9.06

Cárcere das almas

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?!


João da Cruz e Sousa.

11.9.06

O corpo per si







Tudo no corpo, tudo no corpo, tudo no corpo
Nada na alma, nada na alma, nada na alma
Anfetaminas, vitaminas, serotonina
Silicone industrial, especial... botox
Tudo no corpo, nada na alma

Desenvolve o bíceps, tríceps e abdômen
Estagna a mente
E move o corpo, louco, fim em si
Corpo pro corpo, outro corpo
Que perde a alma, mas se acalma, se desarma

Tudo pro corpo, tudo pro corpo, tudo pro corpo
Nada pra alma, nada pra alma, nada pra alma
Que fica vazia, oca, perdida
Sem livros, nem pensamentos

Literatura, pintura, escultura
Só a ultima serve pro corpo
A auto escultura, auto moldura
Do corpo que se desfigura

Tudo no corpo, tudo no corpo
Nada na alma, nada na alma
Que se acalma e se esquece
Paralisa... O corpo precisa
Ser autônomo, da alma
Que arma, não acalma
O corpo que vive per si

4.9.06

A cidade torpe



O que se esconde por trás dessa cidade
Toda cheia de luzes e carros
Faróis que guiam não sei pra onde
O que se esconde

Olhos bem abertos para não perder o foco
Em quem? No sujeito ao lado
No ladrão capturado
Ou no circo que ninguém quer desmontar

Vejo palhaços, muitos palhaços andando
Transeuntes que formam a trupe
Que perdeu sua graça
Bando que se move sobre a desgraça... alheia
Repara no outro e não se penteia
E aponta o culpado, do crime que ele mesmo cometeu

O que se esconde por trás desse discurso
De tantos hipócritas
Porcos, e que ainda acreditam que a sua ótica
Manterá a situação... da cidade
Que mente e não sabe
Alimentar seus próprios animais
De estimação ou criação?!
Talvez bastardos, de sonhos
E que andam escoltados pela desilusão

O que há por de trás de tantos prédios
Favelas, morros mal habitados?
A cidade esconde com sua beleza
Esconde sua real natureza
Perversa e embutida
Por um discurso falso e podre
Da beleza de tudo e de todos

O que se esconde por trás dessa cidade
Dos olhos fixados
Do medo de enfrentar a realidade
Parar no sinal e ser assaltado

A cidade, seus edifícios, condomínios e favelas
Esconde o lixo dos que vivem no lixo
Dos que fazem o lixo
A cada gesto mal acabado
Olhar desconfiado do outro
E que não vê em si a própria torpeza