Dedicado à Catarina Barbosa,
pelo esforço e exemplo de vida.
Não era santa
Catarina subia o morro
Das suas preces guardava tesouros
Mulher forte, invencível
Sob a casca fragilidade
Dor que vem após a perda
Após o dia difícil
Lavava roupa na fonte
De águas claras
Lá em cima nos montes
Mont Serrat
Que serra os punhos daquela gente
Que trabalha feito bicho
Boi no engenho
Gente que não é gente
Subia o Morro depois do cansaço
Depois de reza, da missa na igreja
Mulher de fé
Mulher certeza
Que guiava sua vida –
E a de seus filhos –
Sob duas bases:
Trabalho e fé
Mais fé que trabalho
Mais fé do que o esforço pode agüentar
Do que as pernas podem andar
Do que o Mont pode Serrat
Seus filhos eram muitos
Tinha pra toda idade
Cor, tamanho, sexualidade
Sabia encarar as escolhas de cada um
Quando pequenos, andavam descalços
As roupas, apesar de tanto usadas,
Eram bem limpas, lavadas
Com o suor da velha humilde
Com o rigor da moça bonita
A saudade do filho perdido
Do olhar do marido
Cantando canções de dor e felicidade
Com canto agudo e garganta forte
Pra ver enfim o dia, o filho
Dormir na noite de lua
Cheia ou vazia... barriga
Pra dar de comer aos seus filhos
No café da manhã, no outro dia
Subir o morro
Descer cantando
Com a bacia na cabeça
Carregada de roupa
A vida difícil
Sorriso no rosto
Estampando a felicidade
E a dignidade que a tristeza não pode arrancar
Nos altos do monte
Mont Serrat
Mont dos montes
Perdido no centro
Da cidade torpe
Refúgio de escravos
Sem donos
De filhos de escravos
Das Catarinas
Seus filhos e filhas
Mont da morte
Que um dia foi vida que surge
Em tempos: vida de corre
Pelas valas que jorravam sangue
Hoje jorram esperança
De ver nos montes
Vidas que descem
E tomam a cidade
Que quebram os muros
Construídos para separar
O joio do trigo
O feio do belo
O útil do lixo
Tomam a cidade
Porque a cidade também é deles
E isso nunca os foi dito
Pelas regras de convivência
Nas leis de conveniência
Escritas nos muros invisíveis
Tomam a cidade porque já se foi o tempo
Em que a voz era estanque
Atrofiada pelo trabalho
Das Catarinas
Que precisavam dar de comer
Aos seus filhos
Não era santa
Catarina subia
O morro da caixa
Hoje ela desce
Mesmo na memória
Pra ganhar os espaços
Que foram negados
Pra ela, seu marido, seus filhos
Mas que hoje podem ser reivindicados
Podem ser conquistados
Espaços de luta
Espaços de fala
Espaços de trabalho
De vida que precisa ir além
Dos muros que cercavam Dona Catarina
Abril, 2007
3 comentários:
Poeta Mário,
Catarina continua lá e cá, sua vida foi o significado de fortaleza, e disso você não esquece e nem esquecerá.
Parabéns, você é muito bem no que faz, tenho orgulho de você. Só falta você acreditar na sua capacidade e no que faz, cada vez mais, não espere tanto para mostrar ao mundo as suas poesias, pois a cada que leio me arrepio de tanta clareza, sinceridade e verdade.
Beijos meus e do nosso bebê!!!!
Me avisa quando for publicar, hein? Não, não sejas egoísta Florianópolis precisa te ler.
Beijos, pra ti. Felicidade imensa pra tua família. É, essa que acaba de se formar.
mt bom seu blog !!
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