O Eu etílico que se embriaga por um pensamento

27.9.10

O medo

A Antonio Candido



        "Porque há para todos nós um problema sério...

         Este problema é o do medo."
                   (Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração



Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.


E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.


Carlos Drummond de Andrade

Ontem pela noite me peguei lendo um livro de poemas de Drummond de Andrade, na verdade era um livro emprestado, mas nunca devolvido. Estava aquele objeto há tempos na estante da sala sem que ao menos eu lembrasse de sua existência. Talvez - penso eu - foi o próprio clima frio e chuvoso que me fez virar a cabeça e me voltar ao livro. Não. Minto, foi uma passagem de um poema do autor que vi na TV e me interessei em buscar para saber. 

É engraçado como é atual o tema exposto pelo poeta, como é urgente o medo e como vivemos de medo, comemos medo, andamos com medo e do medo nos fazemos. Pobres homens perdidos em vidas medíocres, soltos em "asas de prudência".  

1 comentários:

Grazielly AB disse...

Temos é que parar de ir no supermercado buscar o medo e passar a ir pra dentro de nós e buscarmos o amor.

M. Davi, a Fernanda escreveu sobre "medo" neste link: http://fernandareiss.blogspot.com/

Achei interessante fazer o contato :D

Estou seguindo!
Bjos

Grazy